Pairam na minha mente pensamentos obscuros. Saltitam para
aqui e acolá entre aquilo que sinto e aquilo que acho que sinto.
Mantenho-me a pé na ânsia de conseguir fechar os olhos e
realizar uma introspecção. Os pés permanecem na terra, mas a alma paira no meio
de outras, que tal como tantos navios andam à deriva. Deixei o coração no leme, como se ele fosse o
capitão de todos os meus sonhos, o primeiro passo do rumo que tomarei um dia.
Adio eternamente a viagem do amo, não por receio, mas pela pouca vontade de
encontrar as léguas que me levam ao porto para encalhar nesse lugar. Adio os
laços, mas nunca mais deixarei para trás todos os que já criei. Tenho nos meus
sonhos metade das cores do mundo. Metade, porque parte delas ficou nos meus
sonhos de criança, e a outra parte, descobrirei nos sonhos do futuro. Já quis
ser princesa, astronauta, bióloga. Já quis ser famosa, ter dinheiro para
comprar todos os meus sonhos. Acordei num momento inoportuno, na passagem da
fase rebelde para a vida adulta. Percebi que, até aí eram só sonhos.Que o amor não é comprado nem os sonhos são vendidos. Por isso, vivo, corro mundo. Anseio conhecer novos sonhos, mas sonhos meus, e não de alguém cujo sonho é fazer parte da minha vida…Porque fazer parte da vida de alguém não é sonho, é uma escolha. E o sonho continua vivo, só restará um dia a pena de ter perdido o contacto com a realidade, porque não é só de sonhos que o homem vive. É a insatisfação que nos mantém vivos, é a vontade de fugir e procurar o outro que nos dá esperança. Pois os sonhos, ficaram pelo caminho, abandonados como uma coisa qualquer, como se não fizessem parte de nós. Quando isso acontece, é porque alguém entra na nossa vida. E aí, os sonhos não são só pessoais, mas a dois. E se um dia eu os conseguir pintar? De que cor serão os meus sonhos a dois? Interrogo-me inúmeras vezes sobre isto, e a pensar eu que já poderia ter sabido de que cor eles eram enquanto os tive…
E mais uma vez aqui permaneço, consciente de que a melhor
coisa que a vida me pode dar é a capacidade de sonhar, de poder estar onde não
estou, de poder contar com quem nunca pude contar, e que alguém estará um dia
do meu lado, relembrando-me que o sonho humano é um mal comum. Que o silêncio
constrangedor, é somente uma forma de diálogo entre amigos improváveis, e que
por muitas coisas que hajam por dizer e fazer, a terra continua a girar.
Os meus sonhos são efémeros, como uma lufada de ar fresco
para os outros numa tarde de Verão. Sonhos… Onde estão? Não têm metade da cor,
nem metade do brilho, e como anseava saber de que cor seriam…
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